08/01/26
Daniel Lyra-Queiroz, Francisco Braga e Mônica Morangueira
A criação do Hospital Estadual de Cuidados Paliativos Mont Serrat, em Salvador (BA), foi um passo significativo na consolidação dos cuidados paliativos como política pública no Brasil. Em um momento em que o país avança na implementação da Política Nacional de Cuidados Paliativos, instituída em 2024, a Secretaria Estadual de Saúde da Bahia se destaca ao implementar a primeira unidade pública dedicada integralmente ao cuidado de pessoas com condições clínicas que exigem atenção continuada, manejo de sintomas e suporte integral às famílias.
Nesse contexto, a equipe do OPGH/Fiocruz conversou com a médica Karoline Apolônia Castro, atual coordenadora do Núcleo Estadual de Cuidados Paliativos da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (SESAB) e gestora do Mont Serrat. O trabalho desenvolvido no Hospital abre precedentes para contribuir com diretrizes nacionais em práticas de cuidado acolhedoras, humanizadas e ancoradas na abordagem multiprofissional. O hospital baiano reúne as dimensões de alívio de sofrimento, atenção física, emocional e espiritual, reabilitação quando possível, apoio ao luto e acompanhamento contínuo. A unidade possui 70 leitos e em julho de 2025 já havia contabilizado mais de 700 pacientes atendidos.
Nesta entrevista, Karoline detalha o processo de implantação do hospital, os desafios de estruturar uma unidade pioneira no país e o impacto dessa iniciativa para o fortalecimento da rede pública de saúde. Ela também reflete sobre como o Mont Serrat se articula à lógica dos cuidados continuados, integrados e longitudinais, contribuindo para um SUS mais sensível, atento e preparado para responder às necessidades de pessoas em situações de maior vulnerabilidade.
Esse é o segundo material da série especial do OPGH/Fiocruz sobre Cuidados Prolongados no SUS.
Confira!
Como surgiu a proposta de criar o primeiro hospital de Cuidados Paliativos do SUS?
A proposta nasceu da percepção de uma necessidade, a partir da análise do maior hospital da Bahia, após levantamento, foi evidenciado que 30% dos pacientes internados teriam necessidade de seguimento com equipe de cuidados paliativos. Após essa evidência, foi iniciado o projeto do primeiro hospital de cuidados paliativos do país em 2018. Movido por um sonho coletivo de humanizar o sistema público de saúde. A Bahia entende que cuidar não é apenas curar, é também aliviar, acolher e promover dignidade.
O Hospital Estadual de Cuidados Paliativos Mont Serrat é fruto de uma política pública ousada, construída sob a liderança do Governo da Bahia, através da SESAB, e inspirada em experiências internacionais de referência, como o St. Christopher’s Hospice, no Reino Unido. Porém o modelo estabelecido no hospital é pioneiro no mundo, não só em razão da complexidade dos pacientes atendidos, como também por não haver limite de idade para a sua admissão. Isso torna o hospital um modelo único de ecossistema de cuidado a paciente e familiares, oferecendo uma assistência integral em um único espaço.
O projeto contou com o projeto da Diretoria de Atenção Especializada na SESAB onde se encontra o Núcleo de Cuidados Paliativos. Atualmente gerido pelas Obras Sociais Irmã Dulce (OSID), que tem uma filosofia de cuidado alinhada com o propósito dessa assistência e de profissionais de múltiplas áreas que acreditaram que o SUS pode, sim, ser um lugar de amor e excelência.
Quais foram os principais desafios, do ponto de vista da gestão, recursos humanos e viabilidade financeira para que esse projeto fosse colocado em prática?
O maior desafio foi cultural, construir um equipamento de saúde que tivesse a visão de cuidado e não de ausência dele. Mudar a lógica de que o cuidado paliativo seria “o fim”, quando, na verdade, ele é o recomeço de um cuidado mais compassivo e complexo.
Do ponto de vista da gestão, esse também foi um grande desafio, visto que se trata do primeiro equipamento de saúde no SUS com esse modelo, mas estruturamos novos fluxos de regulação, dimensionamento de equipe e indicadores de desempenho. Foi preciso desenhar modelos assistenciais e financeiros sustentáveis, integrando gestão pública e excelência técnica.
O desafio dos recursos humanos também foi expressivo: visto que ainda não temos um número expressivo de profissionais com formação em cuidados paliativos. Em razão disso, alguns ajustes e seguimento com formação continuada foram necessários. Nesse sentido, inúmeras ações têm sido feitas, incluindo treinamentos presenciais de capelania, sensibilização em cuidados paliativos, reuniões sistemáticas de educação continuada. A educação é o instrumento mais efetivo para a promoção de mudanças culturais com intuito de formar profissionais capazes de escutar o sofrimento com ciência e sensibilidade.
Cada etapa exigiu coragem e visão e foi assim que um antigo hospital de doenças infecciosas se transformou em símbolo de esperança hoje muito conhecido como ‘Hospital das Despedidas’.
O Hospital de Montserrat, em Salvador, ocupa o antigo prédio do Hospital Couto Maia, referência em doenças infectocontagiosas.Considerando a mudança no perfil assistencial, como foi o processo de reforma e adaptação do prédio?
Foi um trabalho de ressignificação. Onde antes se tratavam doenças, hoje se cuida de pessoas em sua totalidade. Preservamos o valor histórico do prédio, mas o transformamos em um espaço esteticamente leve, acolhedor e funcional.
Os ambientes foram redesenhados para favorecer a convivência, a privacidade e o conforto: quartos individuais, áreas externas ajardinadas, salas para famílias, um deck chamado de local da espiritualidade, refeitório humanizado, espaços de terapias integrativas, sala da saudade (local humanizado onde as famílias podem ritualizar e ficarem juntas para uma despedida). As frases espalhadas por todos os pavimentos são um chamado à reflexão da existência a quem passa por esses espaços. A arquitetura foi pensada como parte do tratamento, cada cor, cada iluminação, cada jardim tem um propósito terapêutico.
Qual foi a filosofia/proposta assistencial adotada no hospital? E como foram desenhados os protocolos de cuidado?
A filosofia é simples e profunda: “Cuidar até o fim, com ciência e compaixão.” Adotamos uma abordagem centrada na pessoa e na família, baseada nos princípios da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Política Nacional de Cuidados Paliativos.
Os protocolos clínicos foram elaborados de forma interdisciplinar, envolvendo medicina, enfermagem, psicologia, fisioterapia, serviço social, nutrição, terapia ocupacional, fonoaudiologia e espiritualidade.
Seguimos diretrizes internacionais como as da European Association for Palliative Care (EAPC) adaptadas à realidade do SUS. Nosso foco é controle de sintomas, comunicação compassiva e planejamento antecipado do cuidado para oferecer a possibilidade do paciente se perceber vivo. Isso tem impacto em boa qualidade de morte e alta hospitalar (essa alta muitas vezes é um - até logo- importante para quem cuida e é cuidado).
O hospital presta serviços a pacientes sob quais condições clínicas? Com quais serviços a unidade conta?
O Hospital acolhe pacientes desde o primeiro dia de vida até adultos em situações de sofrimento intenso, decorrente de doenças que ameaçam a continuidade da vida, oncológicas e não oncológicas, como insuficiências cardíaca, respiratória, renal, neurológica, demencial, entre outras.
Oferecemos internação, ambulatório multiprofissional, ambulatório de luto, sala de infusão, sala de pequenos procedimentos, telemedicina, atendimento de capelania (espiritual) e espaços de acolhimento à família.
O acesso dos pacientes ao Hospital de Montserrat é feito via Central Estadual de Regulação?
Sim, para internação. Todo o acesso se dá pela Central Estadual de Regulação, garantindo equidade e transparência.
Os encaminhamentos vêm de unidades hospitalares e emergências, com critérios clínicos bem definidos que estão divulgados na página da SESAB. Os relatórios são avaliados pela equipe de telemedicina dos hospitais composta por três médicas com formação e experiência em cuidados paliativos, podendo inclusive fazer intervenções com as unidades para auxílio do cuidado dos pacientes.
Como pacientes e familiares avaliam o atendimento prestado no hospital? Quais indicadores vocês utilizam?
Os depoimentos de familiares são a maior evidência de sucesso do projeto. Usamos indicadores quantitativos como taxa de controle de sintomas, tempo médio de permanência, reinternação, avaliação dos óbitos e taxa de ocupação.
Está em processo de implantação a escala de satisfação pelo Net Promoter Score. O resultado mais bonito, porém, é o intangível: o brilho no olhar de quem sente que foi cuidado com amor. Temos recebido famílias que dizem: ‘Aqui, minha mãe voltou a ser chamada pelo nome. Aqui é um pedacinho do céu”. Isso é o que chamamos de sucesso em Cuidados Paliativos.
Por qual razão vocês optaram por colocar uma OS, as Obras Sociais Irmã Dulce (OSID), para gerir a unidade?
Pela expertise da instituição. A OSID já faz a gestão de outras unidades da Secretaria da Saúde do Estado com comprovada competência. No caso específico, a OSID já tem o trabalho de cuidados paliativos no Hospital Santo Antônio.
A Secretaria planeja expandir ou replicar esse modelo em outras regiões do Estado? Vocês já foram procurados por outros estados ou municípios interessados em conhecer essa experiência, e que queiram implantar hospitais ou unidades de cuidados paliativos?
Sim. A Bahia está construindo uma rede estadual de cuidados paliativos, com núcleos regionais nas nove macrorregiões de saúde. O modelo do Mont Serrat é replicável e viável como um excelente equipamento de saúde no SUS.
Já recebemos visitas técnicas de diversos estados e também de instituições internacionais que veem na Bahia um marco de inovação humanitária no SUS. Nosso compromisso é inspirar o Brasil a cuidar melhor porque a morte faz parte da vida, e o cuidado é sempre possível.