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No dia 5 de junho, o site que disponibiliza os dados consolidados pelo Ministério da Saúde sobre a pandemia no país saiu do ar, à noite. Quando retornou, no dia seguinte, estava desfalcado: os números acumulados foram suprimidos, assim como a linha histórica da evolução da doença no país. O site passou a apresentar os dados que haviam sido incluídos na base de dados do governo nas 24 horas anteriores.

O acontecimento, prontamente notado, foi alvo de protestos e também de judicialização. No dia 8 de junho, o ministro do Supremo Alexandre de Moraes determinou que o site voltasse ao ar com as informações que havia omitido e considerou a interrupção abrupta da coleta e divulgação dos dados um grave risco para as políticas públicas de combate à COVID-19. O Ministério da Saúde, então, voltara a divulgá-los da maneira usual, mas sugeriu mudar a metodologia de consolidação de número de óbitos. O ministro interino na pasta, general Eduardo Pazuello, defendeu que a contagem dos óbitos passasse a ser relativa à data do evento (ou seja, o dia da morte), ao invés da data de notificação –  como é feito em todos os países. O intuito, ainda de acordo com ele, era evitar os picos que acontecem após os finais-de-semana, já que os registros caem aos sábados, domingos e feriados. A mudança, também defendida pelo ex-ministro Nelson Teich, não seria para maquiar o número de mortos pela doença, e sim para dar maior confiabilidade e transparência às informações. Alegou, ainda, que não havia como mortes serem disfarçadas. “É inescondível”, concluiu.

Pontos cegos da pandemia:

Subnotificação

A celeuma chamou a atenção sobre a fiabilidade dos dados sobre coronavírus e COVID-19 no Brasil, já questionados pela subnotificação crônica. Levantamento nacional realizado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e financiado pelo Ministério da Saúde aponta que, para cada caso notificado de COVID-19, há sete casos reais na população dos centros urbanos brasileiros. Os dados sobre óbitos também têm sido contestados. Pesquisadores da UFRJ alertam que o aumento do número de mortes em casa pode estar relacionado à pandemia e também ao menor número de leitos ocupados. Em matéria do jornal O Globo, o infectologista Rafael Galliez afirma que houve aumento de óbitos domiciliares em todas as capitais acometidas pela doença. Na mesma reportagem, o infectologista da USP Marcos Boulos diz acreditar que as mensagens contraditórias sobre a conduta no caso da doença e relatos de superlotação nas unidades de atendimento acabem por desencorajar a ida a hospitais, agravando a situação do doente em casa. Levantamento do próprio jornal revela que, do dia 16 de março (início da quarentena no Rio) até dia 8 de junho, 6.281 pessoas morreram em casa no estado do Rio, das quais 119 foram diagnosticadas com coronavírus. Mesmo excluindo estes óbitos, o número é 36% maior do que as 4.508 mortes no mesmo período de 2019. O semelhante também aconteceu em São Paulo, onde as mortes em casa subiram 13%, passando de 9.578 entre março e junho do ano passado para 10.891 óbitos no mesmo período deste ano. Os dados são do Portal da Transparência do Registro Civil.

Mortes por SRAG

As mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) são outro ponto cego da pandemia. Matéria de junho na Revista Piauí mostra que, para cada dez pessoas que morreram por Covid-19 no Brasil, há outros oito óbitos por SRAG sem causa determinada. A reportagem relata que o sistema do Ministério da Saúde desenvolvido para monitorar a influenza se revelou um indicador da subnotificação de mortes pelo coronavírus:  até a primeira semana de junho, foram 23 mil casos. Além de os sintomas de SRAG serem os mesmos de casos graves de coronavírus, a faixa etária das vítimas também é semelhante (sete em cada dez têm 60 anos ou mais) e os casos cresceram juntos a partir da oitava semana do ano. A situação do estado de Minas Gerais é a mais dramática: para cada dez mortes por Covid-19, há 45 mortes por SRAG indeterminada. Em nota técnica, o coordenador do InfoGripe e integrante do Grupo de Métodos Analíticos em Vigilância Epidemiológica (PROCC/Fiocruz e EMAp/FGV) Marcelo Gomes explica que o sistema de vigilância do SIVEP-Gripe (que registra as notificações de SRAG de forma padronizada) é bem estabelecido e vinculado à rede de laboratórios públicos (os LACEN) – de  forma que todos os casos de SRAG devem ter amostra coletada para identificação do vírus associado via exame laboratorial. Portanto, como a COVID-19 é também uma doença respiratória com sinais e sintomas comuns à SRAG, optou-se por incorporar o exame para SAR-CoV-2 no painel de SRAG ao invés de se desenvolver um novo sistema, exclusivo. Ele também explica que o SARS-Cov 2 (vírus causador da COVID-19) é o vírus com maior presença entre os resultados positivos para SRAG (mais de 95% dos casos com resultado positivo para algum vírus respiratório foi positivo justamente para SARS-CoV-2).

Subtestagem

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também demonstra preocupação com a subnotificação brasileira. Além do aumento no número de casos no Brasil e na América Latina, o Brasil testa muito pouco em relação ao tamanho de sua população de 209,5 milhões de habitantes. De acordo com o Worldometer, no dia 22 de junho, o Brasil faz 11.436 testes por milhão de habitantes –  atrás de países como Colômbia, República Dominica, Uruguai e Cuba, na América Latina, e até mesmo do Líbano (que vive uma grave crise econômica, política e social), ocupando a 109ª posição mundial. Ainda assim, o número de casos é expressivo. Na mesma data, a ferramenta aponta para 1.090.349 casos no Brasil, o que corresponderia a quase 12% dos casos no mundo todo (que somam 9.119.585). Resultados preliminares de inquérito sorológico da prefeitura de São Paulo confirmam as suspeitas da OMS de forma alarmante: até 22 de junho, 1,2 milhões de paulistanos (ou 9,5% da população do município) já tinham sido contaminados pelo coronavírus. Este somatório já é maior do que os casos notificados em todo o Brasil.